O poema "Cinza de Fuligem", de Michel F.M. (pseudônimo de Bruno Michel Ferraz Margoni), é uma poderosa releitura urbana e social do clássico conto de fadas dos Irmãos Grimm. Ele utiliza a ironia e a intertextualidade para contrastar a fantasia infantil com a crueza da realidade brasileira.
Aqui está uma análise dos principais pontos:
1. Desconstrução do Mito (O Título e o Nome)
O título já estabelece o tom: enquanto a "Branca de Neve" original remete à pureza e alvura, a "Cinza de Fuligem" remete à sujeira da cidade, à poluição e à invisibilidade social. O apelido da protagonista é descrito como uma "piada" cruel, já que sua cor é parda e sua origem é a "favela da Maçã Envenenada", subvertendo a estética europeia do conto original para uma identidade marginalizada.
2. A "Floresta de Concreto" e a Maçã
O autor substitui os elementos mágicos por alegorias da degradação urbana:
- A Maçã Envenenada: Não é um fruto, mas o ambiente (a favela) e, posteriormente, as drogas.
- A Madrasta/Bruxa: Representa o ciclo de abuso doméstico e o abandono infantil.
- O Sono Profundo: No poema, não é um feitiço, mas o torpor causado pelo vício em crack e a exploração sexual no "Castelo da Morte" (o prostíbulo).
3. Crítica Social e Ancestralidade
O poema toca em feridas profundas da sociedade:
- Abandono e Estrutura Familiar: A menção a "uma mãe e vários pais" e "filhos em diversos cais" retrata a precariedade das relações em zonas portuárias e periféricas.
- Relações de Poder: Os "sete anões" são ressignificados como as "sete prestações" devidas ao tráfico/cafetão, transformando companheiros de ajuda em agentes de dívida e medo.
4. O Desfecho: A Subversão do "Feliz para Sempre"
Diferente do realismo puramente pessimista, o autor escolhe um final de redenção. O "Príncipe" aqui é um "nobre alfaiate" — um trabalhador comum, não alguém da realeza.
- O "sapato de cristal" funciona como um símbolo de dignidade resgatada.
- A mensagem final é de resistência: mesmo na "Floresta de Concreto", o afeto e a humanização (ser chamada de Princesa após uma vida de humilhação) são capazes de criar novos começos.
Estilo
A linguagem é direta, com rimas simples que lembram a estrutura de um cordel moderno ou de uma letra de rap/slam, focada na narrativa e na denúncia social, mas mantendo o lirismo ao falar da esperança no interior da personagem.
Vamos mergulhar em um dos trechos mais densos e simbólicos do poema, onde a transposição do conto de fadas para a realidade urbana é mais visceral:
"Branca de Neve, / Cinza de Fuligem, / Na Floresta de Concreto / Resistiu à sua origem."
A Dualidade do Ser (Branca vs. Cinza)
O refrão utiliza o contraste cromático para definir a personagem. Branca de Neve é o nome que lhe impuseram (a expectativa, o rótulo do "conto de fadas"), enquanto Cinza de Fuligem é a pele marcada pela cidade, pelo asfalto e pela luta pela sobrevivência.
A fuligem é o resíduo da combustão;
sugere que ela é o que restou de um sistema que tenta "queimá-la" diariamente.
A Floresta de Concreto
Diferente da floresta dos Grimm, que é um lugar de perigos mágicos, a Floresta de Concreto (a metrópole) oferece perigos estruturais: o desamparo, a solidão e a indiferença. Aqui, os lobos e bruxas são substituídos pela "fome", pela "polícia" e pelo "preconceito".
A Resistência à Origem
Este é o ponto crucial: "Resistiu à sua origem".
O poema sugere que o destino dela já estava traçado pelo "determinismo social" (nascer na favela, ser abandonada, cair no vício).
Resistir à origem, nesse contexto, não é negar de onde veio, mas recusar o fim trágico que a sociedade reserva para pessoas na situação dela. É um ato de insurgência.
Outro ponto de destaque: A ressignificação dos "Sete Anões"
"- Branca me deve sete prestações, / Em notas trocadas e sem marcações."
Aqui, o autor é brilhante na desconstrução:
No conto original, os sete anões são o suporte e a proteção da protagonista. No poema, o número sete vira um símbolo de opressão econômica.
A dívida (as prestações) é o que a mantém presa ao "cafetão" e ao "Castelo da Morte". É uma metáfora poderosa para a escravidão moderna por dívida, comum no tráfico e na exploração sexual.
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O poema é uma sucessão de metáforas que "traduzem" o lúdico para o trágico. Vamos esmiuçar os símbolos mais fortes dessa transposição da Disney para o asfalto:
1. O Sapato de Cristal e o Alfaiate
No conto original, o sapato é o teste de identidade da Cinderela (aqui misturada à Branca de Neve). No poema, o "sapato de cristal" simboliza a dignidade e o valor invisível.
O Alfaiate: Não é um herói de espada, mas um artesão, um trabalhador que vive de "remendar" e "ajustar" vidas. Ele "garimpou por toda parte", sugerindo que a beleza dela não estava evidente na superfície (suja de crack e fuligem), mas precisava de um olhar humano para ser resgatada.
2. As Poções Encantadas
"Logo caiu nas poções encantadas [...] Mais uma usuária viciada."
Aqui, a metáfora é direta e cruel. As "poções" não dão poderes ou sono mágico; elas são as drogas. O termo "encantadas" ironiza a promessa de fuga da realidade que o vício oferece inicialmente, apenas para encarcerar a personagem em uma dependência "mágica" (ilusória) e destrutiva.
3. O Castelo da Morte
Enquanto no imaginário infantil o castelo é o lugar de segurança e ascensão social, aqui ele é o "Prostíbulo de luxo na zona norte".
A metáfora revela a hipocrisia urbana: o "luxo" do castelo é sustentado pela exploração e pela "perdição" de meninas como Branca. É um lugar onde a vida não tem valor real, apenas preço de vitrine.
4. Sem Tartarugas ou Lebres
"Sem tartarugas ou lebres. Apenas um conto sem fadas."
Esta metáfora nega as fábulas de Esopo e dos Grimm para dizer que na periferia não existe o "tempo da fábula".
Não há a lição de moral da tartaruga que vence pela persistência, nem a chance da lebre descansar.
A vida é uma "corrida diária" (sobrevivência) onde o tempo não é pedagógico, é apenas desgastante.
5. A Maçã Envenenada como Espaço Geográfico
A maçã deixa de ser um objeto ingerido e passa a ser o território. A "Favela da Maçã Envenenada" é o lugar que, teoricamente, deveria nutrir a criança (como uma fruta), mas que a contamina desde o nascimento devido à negligência do Estado e à violência.
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Cinza de Fuligem
(Michel F.M.)
Certa vez conheci uma senhora
Que morava no interior,
A chamavam de Branca de Neve,
Não tinha nada de muito valor.
Uma casinha no campo,
Um jardim florido,
Canto calmo longe do perigo.
Numa tarde seca e quente,
Lhe pedi um copo d'água
Em frente à seu casebre,
Espontaneamente me contou
Sobre suas jornadas,
Sem tartarugas ou lebres,
Apenas um conto sem fadas.
As ilustrações não eram leves
E as indagações tão pouco breves.
Seu apelido era uma piada,
Sua cor era parda,
Mas Branca de Neve
Já estava acostumada,
Pois desde jovenzinha
Tinha sido discriminada.
Ao nascer prematura foi abandonada,
Criada na favela da Maça Envenenada.
Filha de uma mãe e vários pais,
Que tinham outros filhos em diversos cais,
A história se fazia, corrida diária,
Aquela sobrevida na zona portuária.
Branca de Neve,
Cinza de Fuligem,
Na Floresta de Concreto
Resistiu à sua origem.
Foi adotada por uma bruxa,
Acorrentada no porão pela madrasta,
Era espancada, levou muita bucha,
Se viu acurralada e deu uma basta.
Fugiu numa noite gélida,
Logo caiu nas poções encantadas,
Não imaginou as ruas tão violentas,
Mais uma usuária viciada.
- Branca me deve sete prestações,
Em notas trocadas e sem marcações.
Para pagar o sujo cafetão,
Foi enviada ao Castelo da Morte,
Forçada a entrar nessa perdição,
Prostíbulo de luxo na zona norte.
A sorte azarada estava lançada,
E a Branca de Neve
Caiu num sono profundo,
À facção foi incorporada,
Regada à crack num antro imundo.
Branca de Neve,
Cinza de Fuligem,
Na Floresta de Concreto
Resistiu à sua origem.
A pobre menina carente,
Viveria infeliz para sempre,
Se não fosse por um nobre alfaiate,
Que achara um sapato de cristal.
Garimpou por toda parte,
Imaginando uma beleza colossal.
Ele não fomentou sua longa empreitada,
Mas trombou com Branquinha,
Numa noite estrelada.
Entre o castelo e o mirante,
Um conto triste teve
Um desfecho brilhante.
Mesmo depois de tanta tristeza,
Ela encontrou um Príncipe
Que a chamou de Princesa.
Branca de Neve,
Cinza de Fuligem,
Na Floresta de Concreto
Finais felizes também existem.
Finais felizes também existem.
(Áspera Seda: Volume Único - Esplêndida Face Magnífica)