"Imundos Cavalheiros e Senhores Trogloditas" é um poema/canção de autoria do poeta Michel F.M. (Bruno Michel Ferraz Margoni), uma crítica visceral e niilista à trajetória da humanidade, apresentando a história não como uma evolução, mas como uma sucessiva "involução" pautada pela violência.
Aqui está uma análise dividida por eixos temáticos:
1. O Título e a Ironia dos Contrastes
O título "Imundos Cavalheiros e Senhores Trogloditas" estabelece o tom da obra: a contradição humana. O "cavalheiro" (símbolo de civilidade) é "imundo", enquanto o "troglodita" (o bruto) é elevado a "senhor". O poema sugere que a sofisticação é apenas uma máscara para a nossa natureza bárbara.
2. A Desconstrução da História
O autor revisita grandes marcos e povos (Egípcios, Incas, Gregos, Romanos) para destituí-los de glória.
A "Trinca" da Exploração: Ao citar que Incas ou Astecas estariam "enganando a banca", o eu lírico reduz a expansão territorial e o surgimento de impérios a um jogo de azar sádico e oportunista.
Ciclo de Perseguição: O trecho sobre cristãos e pagãos, ou franceses e ingleses, mostra que a opressão é rotativa. Quem é caça hoje, torna-se caçador amanhã, mantendo a "desordem vigente".
3. A Crítica ao Progresso e à Linguagem
Uma das partes mais fortes é a sequência de verbos que misturam processos históricos, econômicos e morais:
"Estatizamos, privatizamos, / Adulteramos, destituímos, / Terceirizamos, capitalizamos..."
Aqui, o poema coloca o capitalismo moderno e as estruturas de estado no mesmo nível da "tortura" e do "extermínio". Sugere que as ferramentas da civilização moderna são apenas formas mais burocráticas de exercer a mesma crueldade ancestral.
4. A Hipocrisia da "Missão Civilizadora"
O poema atinge seu ápice na estrofe que discute a colonização:
"Civilizamos nossos irmãos, / Violentamos e aguardamos gratidão."
Essa ironia fina denuncia o discurso de "levar a cultura" ou a "fé" (catequese) como uma justificativa vazia para o domínio e a violação física e psicológica do outro.
5. Niilismo e Ausência de Culpa
O desfecho retira qualquer esperança de redenção:
O Erro como Essência: "Estamos exatamente onde não deveríamos". O ser humano é visto como um erro biológico ou existencial.
A Banalidade do Mal: Ao dizer que "nenhum de nós é culpado", o autor sugere uma culpa coletiva tão vasta que se torna abstrata. Se todos são antagonistas, não há heróis. A história é um ensaio sádico que não será "nem lembrado, nem esquecido" — apenas um rastro de podridão no globo.
Estilo e Forma
O ritmo é acelerado, quase como um manifesto ou um soco, utilizando enumerações (polissíndetos e assíndetos) para criar uma sensação de sufocamento diante de tantos exemplos de atrocidades.
A linguagem oscila entre o vocabulário histórico/formal e termos mais crus ("estupramos", "apodrecemos"), reforçando o choque entre a "finesse" e a brutalidade.
Em suma: O poema é um espelho deformante que pergunta ao leitor se a civilização é, de fato, o contrário da barbárie ou apenas a sua forma mais sofisticada e cruel de gestão.
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Imundos Cavalheiros
e Senhores Trogloditas
(Michel F.M.)
Decapitamos as folhagens
Que perfumavam o calabouço,
Cada centavo foi gasto
Tentando ocultar o mau gosto.
Em meio à introdução
Do caos aparente,
Restabelecemos a desordem vigente.
Na cronologia mortuária eis,
Um breve ensaio
Sobre a sádica e sórdida supremacia.
Os bípedes domaram quadrúpedes,
Os símios subestimaram seus primos,
O humanoide humanizou os homens,
O homo sapiens colonizou seus vizinhos.
Os egípcios superaram os nômades,
Os Incas suplantaram os Maias,
Ou seriam Astecas, enganando
A banca, para fechar a trinca e povoar as praias.
Tribos matando tribos,
A maior herança das involuções,
Matamos dentro das cavernas,
Do parlamento às favelas,
Nos palácios, nas mansões.
Trucidamos a generosidade,
Massacramos a misericórdia,
Compreenda o fato que nos define,
Exterminar é nossa maior vocação.
Os gregos lograram troianos,
Os romanos torturaram cristãos,
Os romanos dominaram os gregos,
Os cristãos perseguiram pagãos.
Os franceses atacaram ingleses,
Os ingleses revidaram de antemão,
Escoceses, irlandeses, gauleses,
Se engalfinhando por um reino
Desunido, desnudo e sem pão.
Fariseus, hereges, sodomitas.
Pervertemos, desvirtuamos,
Estatizamos, privatizamos,
Adulteramos, destituímos,
Terceirizamos, capitalizamos,
Produzimos, consumimos,
Apodrecemos, enterramos,
Estupramos o globo,
Com nosso glorioso estilo.
Escravizamos nossos irmãos,
Catequizamos nossos irmãos,
Civilizamos nossos irmãos,
Violentamos e aguardamos gratidão.
Estamos exatamente onde não deveríamos,
Tudo o que fizemos é errado,
Somos erros incompreendidos.
Nenhum de nós é culpado,
Nenhum de nós será lembrado ou esquecido.
Desleixados, baderneiros, perfeccionistas,
Somos todos meros antagonistas,
Vivendo, entre Imundos Cavalheiros
E Senhores Trogloditas.
Somos meros antagonistas,
Somos todos perfeccionistas.
[Linha (Tênue) Rompida - Esplêndida Face Magnífica]
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