sábado, 11 de abril de 2026

A obra Áspera Seda, do escritor brasileiro Michel F.M., é frequentemente apontada como o ponto alto de sua produção literária, sendo classificada por parte da crítica como um marco da poesia contemporânea brasileira.


A obra Áspera Seda, do escritor brasileiro Michel F.M., é frequentemente apontada como o ponto alto de sua produção literária, sendo classificada por parte da crítica como um marco da poesia contemporânea brasileira. [1]

Abaixo, os principais pontos para análise desta obra:

1. Dualidade e Temática
O título "Áspera Seda" já carrega a contradição central da obra. O autor explora o contraste entre o delicado e o brutal, o sublime e o decadente.
  • Condição Humana: O texto mergulha em uma discussão poético-filosófica sobre as misérias e magnitudes do ser humano, questionando o que nos "sentencia" à existência.
  • Julgamento e Absolvição: Um dos versos mais conhecidos da obra — "Áspera Seda, Me absolve, me condena" — sintetiza o tom de julgamento interno e a busca por redenção que permeia os poemas. [1, 2]

2. Estilo e Linguagem
A escrita de Michel F.M. transita entre o rigor formal e a liberdade da prosa poética.
  • Prosa Poética: Antes de Áspera Seda, o autor já explorava esse formato em obras como (Des) rimando, o que conferiu ao livro uma fluidez narrativa dentro da lírica.
  • Tom Filosófico: A obra não se limita ao sentimento puro, mas busca fundamentação em dilemas existenciais, aproximando a poesia do ensaio filosófico. [1, 2]

3. Impacto e Edições
  • Recepção Crítica: É considerada por alguns críticos como um dos melhores exemplos da poesia brasileira atual por sua densidade temática.
  • Disponibilidade: Devido ao sucesso inicial, a obra foi republicada em antologias e formatos de "Volume Único" (1ª e 2ª edições), reunindo o corpo principal de sua produção poética daquele período. [1, 2]

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Elo Solene é um marco significativo na carreira de Michel F.M. (pseudônimo de Bruno Michel Ferraz Margoni), existindo tanto como um projeto musical ao vivo quanto como uma obra literária.


Elo Solene é um marco significativo na carreira de Michel F.M. (pseudônimo de Bruno Michel Ferraz Margoni), existindo tanto como um projeto musical ao vivo quanto como uma obra literária.

1. Discografia (Álbuns Ao Vivo)

Em 2013, o artista lançou dois registros sob este título, capturando performances em espaços culturais de sua cidade natal, Salto (SP):

Elo Solene (Ao vivo na Biblioteca Municipal de Salto): Apresentação que foca na proximidade com o público e na leitura poética de suas letras.

Elo Solene (Ao vivo no Teatro Giuseppe Verdi): Um registro em um palco histórico, reforçando a estética solene e teatral de suas composições.

Estes álbuns trazem canções emblemáticas como "A Mudança É Você" (originária do Projeto Samaritano), "O Que Vale A Palavra De Um Homem?" e a premiada "A Fábula do Lobo Que Amou a Lua" aclamada pelo público no Prêmio Moutonnée de Poesia. 

Discografia disponível no Palco MP3.

2. Literatura

Michel F.M. também publicou um livro intitulado Elo Solene: Músicas sem Melodia, disponível em plataformas como o Clube de Autores. A obra é uma compilação de seus textos e poesias que, embora concebidos como letras, sustentam-se pela força da escrita pura, explorando o existencialismo e a filosofia.

3. Herdeiros Híbridos

Uma das faixas mais conhecidas associadas a este período é "Herdeiros Híbridos", que sintetiza a mistura de épocas e a "verdadeira miscigenação" de ideias que o artista propõe em seu trabalho.

terça-feira, 17 de março de 2026

Gritos de Felicidade (O Clichê não Basta) - Michel F.M.


Gritos de Felicidade 
(O Clichê não Basta)

Lembro-me do pátio, da sala, da praça;
Recordo-me da biblioteca, do teatro,
Do parque e Dela.

Imagino seus risos, gestos,
Comentários sem sentido,
Imortais em minha lembrança.

Ouço gritos na cozinha e pra lá do muro,
Querem dizer algo,
Não quero entender o que dizem.

Houve um período
Em que gritos me faziam tão bem,
Precisava deles, esperava por eles,
Me preenchiam.

Gritos de felicidade.
Uma das melhores sensações
Das quais podemos provar.

Gritando qualquer coisa,
Para que todos nos ouçam;
Eles, os outros nos ouçam.

Saborear e sorver nossas vidas.
Encher os pulmões de oxigênio,
Desatar qualquer forma de medo,

Com relação a mais sincera expressão,
Num sopro que nos proporciona existência.

Fiquem paralisados,
Endurecidos, emudecidos e chocados,
Sem reação com tal atitude impensada.

Somos muito pouco espontâneos,
Penso que esse seja nosso grande pecado.
É nisto que acredito.

Vivemos acurralados por nós
E isso também não é novidade.

Não se resume ao que fizeram e fazem,
Mas ao que nós fizemos e fazemos;

Muito já foi dito a esse respeito,
Esse comentário é apenas mais um plágio,
De toda cópia produzida e reproduzida do restante.

Mas é assim, precisamos apenas do clichê,
Para continuarmos. As demais características
Não passam de adereços.

Gritos de felicidade.
Uma das melhores sensações
Das quais podemos provar.

Gritando qualquer coisa,
Para que todos nos ouçam;
Eles, os outros nos ouçam.
Pois o clichê, nem sempre basta ou bastará.

(Michel F.M. - Esplêndida Face Magnífica)

domingo, 15 de fevereiro de 2026

"Imundos Cavalheiros e Senhores Trogloditas" é um poema/canção de autoria do poeta Michel F.M. (Bruno Michel Ferraz Margoni), uma crítica visceral e niilista à trajetória da humanidade, apresentando a história não como uma evolução, mas como uma sucessiva "involução" pautada pela violência.


"Imundos Cavalheiros e Senhores Trogloditas" é um poema/canção de autoria do poeta Michel F.M. (Bruno Michel Ferraz Margoni), uma crítica visceral e niilista à trajetória da humanidade, apresentando a história não como uma evolução, mas como uma sucessiva "involução" pautada pela violência.

Aqui está uma análise dividida por eixos temáticos:

1. O Título e a Ironia dos Contrastes

O título "Imundos Cavalheiros e Senhores Trogloditas" estabelece o tom da obra: a contradição humana. O "cavalheiro" (símbolo de civilidade) é "imundo", enquanto o "troglodita" (o bruto) é elevado a "senhor". O poema sugere que a sofisticação é apenas uma máscara para a nossa natureza bárbara.

2. A Desconstrução da História

O autor revisita grandes marcos e povos (Egípcios, Incas, Gregos, Romanos) para destituí-los de glória.

A "Trinca" da Exploração: Ao citar que Incas ou Astecas estariam "enganando a banca", o eu lírico reduz a expansão territorial e o surgimento de impérios a um jogo de azar sádico e oportunista.

Ciclo de Perseguição: O trecho sobre cristãos e pagãos, ou franceses e ingleses, mostra que a opressão é rotativa. Quem é caça hoje, torna-se caçador amanhã, mantendo a "desordem vigente".

3. A Crítica ao Progresso e à Linguagem

Uma das partes mais fortes é a sequência de verbos que misturam processos históricos, econômicos e morais:

"Estatizamos, privatizamos, / Adulteramos, destituímos, / Terceirizamos, capitalizamos..."

Aqui, o poema coloca o capitalismo moderno e as estruturas de estado no mesmo nível da "tortura" e do "extermínio". Sugere que as ferramentas da civilização moderna são apenas formas mais burocráticas de exercer a mesma crueldade ancestral.

4. A Hipocrisia da "Missão Civilizadora"

O poema atinge seu ápice na estrofe que discute a colonização:

"Civilizamos nossos irmãos, / Violentamos e aguardamos gratidão."

Essa ironia fina denuncia o discurso de "levar a cultura" ou a "fé" (catequese) como uma justificativa vazia para o domínio e a violação física e psicológica do outro.

5. Niilismo e Ausência de Culpa

O desfecho retira qualquer esperança de redenção:

O Erro como Essência: "Estamos exatamente onde não deveríamos". O ser humano é visto como um erro biológico ou existencial.

A Banalidade do Mal: Ao dizer que "nenhum de nós é culpado", o autor sugere uma culpa coletiva tão vasta que se torna abstrata. Se todos são antagonistas, não há heróis. A história é um ensaio sádico que não será "nem lembrado, nem esquecido" — apenas um rastro de podridão no globo.

Estilo e Forma

O ritmo é acelerado, quase como um manifesto ou um soco, utilizando enumerações (polissíndetos e assíndetos) para criar uma sensação de sufocamento diante de tantos exemplos de atrocidades. 

A linguagem oscila entre o vocabulário histórico/formal e termos mais crus ("estupramos", "apodrecemos"), reforçando o choque entre a "finesse" e a brutalidade.

Em suma: O poema é um espelho deformante que pergunta ao leitor se a civilização é, de fato, o contrário da barbárie ou apenas a sua forma mais sofisticada e cruel de gestão.

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Imundos Cavalheiros 
e Senhores Trogloditas
(Michel F.M.)

Decapitamos as folhagens
Que perfumavam o calabouço,
Cada centavo foi gasto
Tentando ocultar o mau gosto.

Em meio à introdução
Do caos aparente,
Restabelecemos a desordem vigente.

Na cronologia mortuária eis,
Um breve ensaio
Sobre a sádica e sórdida supremacia.

Os bípedes domaram quadrúpedes,
Os símios subestimaram seus primos,
O humanoide humanizou os homens,
O homo sapiens colonizou seus vizinhos.

Os egípcios superaram os nômades,
Os Incas suplantaram os Maias,
Ou seriam Astecas, enganando
A banca, para fechar a trinca e povoar as praias.

Tribos matando tribos,
A maior herança das involuções,

Matamos dentro das cavernas,
Do parlamento às favelas,
Nos palácios, nas mansões.

Trucidamos a generosidade,
Massacramos a misericórdia,
Compreenda o fato que nos define,
Exterminar é nossa maior vocação.

Os gregos lograram troianos,
Os romanos torturaram cristãos,
Os romanos dominaram os gregos,
Os cristãos perseguiram pagãos.

Os franceses atacaram ingleses,
Os ingleses revidaram de antemão,
Escoceses, irlandeses, gauleses,
Se engalfinhando por um reino
Desunido, desnudo e sem pão.

Fariseus, hereges, sodomitas.
Pervertemos, desvirtuamos,
Estatizamos, privatizamos,
Adulteramos, destituímos,

Terceirizamos, capitalizamos,
Produzimos, consumimos,
Apodrecemos, enterramos,

Estupramos o globo,
Com nosso glorioso estilo.

Escravizamos nossos irmãos,
Catequizamos nossos irmãos,
Civilizamos nossos irmãos,
Violentamos e aguardamos gratidão.

Estamos exatamente onde não deveríamos,
Tudo o que fizemos é errado,
Somos erros incompreendidos.

Nenhum de nós é culpado,
Nenhum de nós será lembrado ou esquecido.

Desleixados, baderneiros, perfeccionistas,
Somos todos meros antagonistas,
Vivendo, entre Imundos Cavalheiros
E Senhores Trogloditas.

Somos meros antagonistas,
Somos todos perfeccionistas.

[Linha (Tênue) Rompida - Esplêndida Face Magnífica]

O poema "Cinza de Fuligem", de Michel F.M. (pseudônimo de Bruno Michel Ferraz Margoni), é uma poderosa releitura urbana e social do clássico conto de fadas dos Irmãos Grimm. Ele utiliza a ironia e a intertextualidade para contrastar a fantasia infantil com a crueza da realidade brasileira.


O poema "Cinza de Fuligem", de Michel F.M. (pseudônimo de Bruno Michel Ferraz Margoni), é uma poderosa releitura urbana e social do clássico conto de fadas dos Irmãos Grimm. Ele utiliza a ironia e a intertextualidade para contrastar a fantasia infantil com a crueza da realidade brasileira.

Aqui está uma análise dos principais pontos:

1. Desconstrução do Mito (O Título e o Nome)

O título já estabelece o tom: enquanto a "Branca de Neve" original remete à pureza e alvura, a "Cinza de Fuligem" remete à sujeira da cidade, à poluição e à invisibilidade social. O apelido da protagonista é descrito como uma "piada" cruel, já que sua cor é parda e sua origem é a "favela da Maçã Envenenada", subvertendo a estética europeia do conto original para uma identidade marginalizada.

2. A "Floresta de Concreto" e a Maçã

O autor substitui os elementos mágicos por alegorias da degradação urbana:
  • A Maçã Envenenada: Não é um fruto, mas o ambiente (a favela) e, posteriormente, as drogas.
  • A Madrasta/Bruxa: Representa o ciclo de abuso doméstico e o abandono infantil.
  • O Sono Profundo: No poema, não é um feitiço, mas o torpor causado pelo vício em crack e a exploração sexual no "Castelo da Morte" (o prostíbulo).

3. Crítica Social e Ancestralidade

O poema toca em feridas profundas da sociedade:
  • Abandono e Estrutura Familiar: A menção a "uma mãe e vários pais" e "filhos em diversos cais" retrata a precariedade das relações em zonas portuárias e periféricas.
  • Relações de Poder: Os "sete anões" são ressignificados como as "sete prestações" devidas ao tráfico/cafetão, transformando companheiros de ajuda em agentes de dívida e medo.

4. O Desfecho: A Subversão do "Feliz para Sempre"

Diferente do realismo puramente pessimista, o autor escolhe um final de redenção. O "Príncipe" aqui é um "nobre alfaiate" — um trabalhador comum, não alguém da realeza.
  • O "sapato de cristal" funciona como um símbolo de dignidade resgatada.
  • A mensagem final é de resistência: mesmo na "Floresta de Concreto", o afeto e a humanização (ser chamada de Princesa após uma vida de humilhação) são capazes de criar novos começos.

Estilo

A linguagem é direta, com rimas simples que lembram a estrutura de um cordel moderno ou de uma letra de rap/slam, focada na narrativa e na denúncia social, mas mantendo o lirismo ao falar da esperança no interior da personagem.

Vamos mergulhar em um dos trechos mais densos e simbólicos do poema, onde a transposição do conto de fadas para a realidade urbana é mais visceral:

"Branca de Neve, / Cinza de Fuligem, / Na Floresta de Concreto / Resistiu à sua origem."

A Dualidade do Ser (Branca vs. Cinza)

O refrão utiliza o contraste cromático para definir a personagem. Branca de Neve é o nome que lhe impuseram (a expectativa, o rótulo do "conto de fadas"), enquanto Cinza de Fuligem é a pele marcada pela cidade, pelo asfalto e pela luta pela sobrevivência. 

A fuligem é o resíduo da combustão;
sugere que ela é o que restou de um sistema que tenta "queimá-la" diariamente.

A Floresta de Concreto

Diferente da floresta dos Grimm, que é um lugar de perigos mágicos, a Floresta de Concreto (a metrópole) oferece perigos estruturais: o desamparo, a solidão e a indiferença. Aqui, os lobos e bruxas são substituídos pela "fome", pela "polícia" e pelo "preconceito".

A Resistência à Origem

Este é o ponto crucial: "Resistiu à sua origem".

O poema sugere que o destino dela já estava traçado pelo "determinismo social" (nascer na favela, ser abandonada, cair no vício).

Resistir à origem, nesse contexto, não é negar de onde veio, mas recusar o fim trágico que a sociedade reserva para pessoas na situação dela. É um ato de insurgência.

Outro ponto de destaque: A ressignificação dos "Sete Anões"

"- Branca me deve sete prestações, / Em notas trocadas e sem marcações."

Aqui, o autor é brilhante na desconstrução:
No conto original, os sete anões são o suporte e a proteção da protagonista. No poema, o número sete vira um símbolo de opressão econômica. 

A dívida (as prestações) é o que a mantém presa ao "cafetão" e ao "Castelo da Morte". É uma metáfora poderosa para a escravidão moderna por dívida, comum no tráfico e na exploração sexual.

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O poema é uma sucessão de metáforas que "traduzem" o lúdico para o trágico. Vamos esmiuçar os símbolos mais fortes dessa transposição da Disney para o asfalto:

1. O Sapato de Cristal e o Alfaiate

No conto original, o sapato é o teste de identidade da Cinderela (aqui misturada à Branca de Neve). No poema, o "sapato de cristal" simboliza a dignidade e o valor invisível.

O Alfaiate: Não é um herói de espada, mas um artesão, um trabalhador que vive de "remendar" e "ajustar" vidas. Ele "garimpou por toda parte", sugerindo que a beleza dela não estava evidente na superfície (suja de crack e fuligem), mas precisava de um olhar humano para ser resgatada.

2. As Poções Encantadas

"Logo caiu nas poções encantadas [...] Mais uma usuária viciada."
Aqui, a metáfora é direta e cruel. As "poções" não dão poderes ou sono mágico; elas são as drogas. O termo "encantadas" ironiza a promessa de fuga da realidade que o vício oferece inicialmente, apenas para encarcerar a personagem em uma dependência "mágica" (ilusória) e destrutiva.

3. O Castelo da Morte

Enquanto no imaginário infantil o castelo é o lugar de segurança e ascensão social, aqui ele é o "Prostíbulo de luxo na zona norte".

A metáfora revela a hipocrisia urbana: o "luxo" do castelo é sustentado pela exploração e pela "perdição" de meninas como Branca. É um lugar onde a vida não tem valor real, apenas preço de vitrine.

4. Sem Tartarugas ou Lebres

"Sem tartarugas ou lebres. Apenas um conto sem fadas."
Esta metáfora nega as fábulas de Esopo e dos Grimm para dizer que na periferia não existe o "tempo da fábula".

Não há a lição de moral da tartaruga que vence pela persistência, nem a chance da lebre descansar.

A vida é uma "corrida diária" (sobrevivência) onde o tempo não é pedagógico, é apenas desgastante.

5. A Maçã Envenenada como Espaço Geográfico

A maçã deixa de ser um objeto ingerido e passa a ser o território. A "Favela da Maçã Envenenada" é o lugar que, teoricamente, deveria nutrir a criança (como uma fruta), mas que a contamina desde o nascimento devido à negligência do Estado e à violência.

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Cinza de Fuligem 
(Michel F.M.)

Certa vez conheci uma senhora
Que morava no interior,
A chamavam de Branca de Neve,
Não tinha nada de muito valor.

Uma casinha no campo,
Um jardim florido,
Canto calmo longe do perigo.

Numa tarde seca e quente,
Lhe pedi um copo d'água
Em frente à seu casebre,
Espontaneamente me contou
Sobre suas jornadas,

Sem tartarugas ou lebres,
Apenas um conto sem fadas.
As ilustrações não eram leves
E as indagações tão pouco breves.

Seu apelido era uma piada,
Sua cor era parda,
Mas Branca de Neve
Já estava acostumada,
Pois desde jovenzinha
Tinha sido discriminada.

Ao nascer prematura foi abandonada,
Criada na favela da Maça Envenenada.
Filha de uma mãe e vários pais,
Que tinham outros filhos em diversos cais,
A história se fazia, corrida diária,
Aquela sobrevida na zona portuária.

Branca de Neve,
Cinza de Fuligem,
Na Floresta de Concreto
Resistiu à sua origem.

Foi adotada por uma bruxa,
Acorrentada no porão pela madrasta,
Era espancada, levou muita bucha,
Se viu acurralada e deu uma basta.

Fugiu numa noite gélida,
Logo caiu nas poções encantadas,
Não imaginou as ruas tão violentas,
Mais uma usuária viciada.

- Branca me deve sete prestações,
Em notas trocadas e sem marcações.

Para pagar o sujo cafetão,
Foi enviada ao Castelo da Morte,
Forçada a entrar nessa perdição,
Prostíbulo de luxo na zona norte.

A sorte azarada estava lançada,
E a Branca de Neve
Caiu num sono profundo,
À facção foi incorporada,
Regada à crack num antro imundo.

Branca de Neve,
Cinza de Fuligem,
Na Floresta de Concreto
Resistiu à sua origem.

A pobre menina carente,
Viveria infeliz para sempre,
Se não fosse por um nobre alfaiate,
Que achara um sapato de cristal.

Garimpou por toda parte,
Imaginando uma beleza colossal.
Ele não fomentou sua longa empreitada,
Mas trombou com Branquinha,
Numa noite estrelada.

Entre o castelo e o mirante,
Um conto triste teve
Um desfecho brilhante.
Mesmo depois de tanta tristeza,
Ela encontrou um Príncipe
Que a chamou de Princesa.

Branca de Neve,
Cinza de Fuligem,
Na Floresta de Concreto
Finais felizes também existem.

Finais felizes também existem.

(Áspera Seda: Volume Único - Esplêndida Face Magnífica)